quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Entrevista: Valter Pomar - A Esperança é Vermelha

13/11/2007 - 13h35 Valter defende mais espaço e influencia do PT no governo Lula. Veja a entrevista em vídeo


Da Redação

Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT. Historiador, tem 41 anos e é filiado ao PT desde o início dos anos 80.
Há dez anos, é integrante do Diretório Nacional do partido e ocupou a 3ª vice-presidência da sigla em 2005. Trabalhou em administrações petistas nas cidades de Santos e Campinas. Pomar é candidato à presidência do PT pela chapa "A Esperança é Vermelha".
Leia os principais trechos da entrevista concedida ao UOL News.
UOL News - Por que o senhor quer ser presidente do PT?

Valter Pomar - Em primeiro lugar porque o PT precisa superar a crise que ainda está imerso e, em segundo lugar, porque o PT precisa continuar sendo o principal partido de esquerda do Brasil. Isso vai exigir uma direção nacional capaz de vencer as eleições municipais do ano que vem, capaz de reaproximar o PT dos programas sociais, capaz de reaproximar o PT dos aliados de esquerda, capaz de aumentar a influência do PT no governo Lula e capaz de melhorar o funcionamento do PT, que precisa de um jornal, precisa de uma escola, uma juventude petista mais forte.

UOL News - Entre os quatro principais candidatos, você é o único que não é deputado. Vê desvantagem nisso?

Valter Pomar - É uma vantagem para o PT que vai ter um presidente que vai dispor de tempo integral para dirigir o partido. Essa idéia de que o PT é melhor se for dirigido por um parlamentar é um fato que a experiência mostrou que não é verdadeira.

UOL News - Que mudanças o senhor defende para o PT?

Valter Pomar - Do ponto de vista público, eu defendo que o partido tenha mais protagonismo. O PT precisa estar mais presente na luta cotidiana do povo brasileiro, nas mobilizações nacionais, na apresentação de propostas para a sociedade, inclusive para os governos que ele dirige. Internamente, o partido precisa de mais democracia, mas não democracia em abstrato. O militante precisa ter acesso a mais informação, isso significa um jornal, ele ter acesso a formação política, isso significa ter acesso a uma escola, e significa que a juventude petista tenha uma atenção redobrada do partido.

UOL News - Quais os principais erros e acertos do PT ao longo de sua história? E qual o futuro do partido?

Valter Pomar - Eu queria começar com o futuro do PT. O PT é o maior partido de esquerda do Brasil e da América Latina. É um partido identificado com a população com o partido mais identificado com os interesses populares e é um partido que não perdeu os vínculos com a classe trabalhadora. Quais os erros que cometemos? Eu vou me referir aos erros mais recentes, de 95 para cá. Com o objetivo justo de querer ganhar a presidência da República, a gente ampliou demasiadamente as alianças, a gente abandonou alguns pontos do nosso programa e a gente subordinou o partido a governos, quando, na verdade, o nosso partido tem que ser, quando estando e apoiando o governo, ele vê mais longe e defende os objetivos de longo prazo.
UOL News - Que pontos o PT abandonou?

Valter Pomar - O PT como um todo não abandonou. O setor que comandou o partido colocou alguns compromissos em segundo plano. Vou dar um exemplo que para mim é muito claro. O Banco Central brasileiro ainda hoje é presidido por Henrique Meirelles, que mantém uma taxa de juros completamente estapafúrdia, que atrapalha o crescimento do país, atrapalha a aplicação de políticas sociais e de políticas públicas e a proposta de desenvolvimento impulsionada pelo nosso partido e pelo nosso governo. Outro exemplo. Na área da reforma agrária. Nós estamos muito longe de cumprir aquilo que o presidente Lula determinou já há muito tempo, que é, se ele pudesse fazer uma única coisa no seu governo, ele faria a reforma agrária. Então, há muitas coisas que foram colocadas em segundo plano, e que, agora, cabe ao partido colocá-las em primeiro plano.

UOL News - A redução da carga tributária foi uma bandeira que o PT também abandonou?
Valter Pomar - O problema no Brasil não é que a carga tributária é alta. É que existe muita sonegação e que os ricos não querem pagar imposto. Você veja o debate sobre a CPMF. É escandaloso que sejam os grandes empresários, os ricos, os muito ricos deste país que combatem a CPMF não porque pesa no bolso deles, mas porque a CPMF não tem como sonegar. O ponto de vista do PT é que haja impostos sobre as grandes empresas, imposto sobre as grandes fortunas e curiosamente o Congresso Nacional, quando nós apresentamos uma proposta nesse sentido, não quis dar guarida a esta proposta, que faria com que nós tivemos impostos, que tem que existir, porque, se não, não tem política pública, mas também impostos democraticamente distribuídos, que tem mais paga mais.

UOL News - Você defende a prorrogação da CPMF?

Valter Pomar - Claro que eu defendo. Acabar com a CPMF é cortar Bolsa Família, é cortar verba para a saúde, é cortar verba para a Educação é reduzir a possibilidade de o governo beneficiar as camadas mais pobres no Brasil.
UOL News - Qual a principal crítica que você faz ao PT?
Valter Pomar - Eu não faço críticas ao PT. Eu faço críticas a setores que dirigiram o PT em um ou outro momento. O nosso partido, do ponto de vista mais recente, por conta da direção que ele teve, entre 95 e 2005, certamente se afastou dos movimentos sociais, não os petistas. Se você olhar os movimentos sociais, a maioria é petista, mas a direção do partido deu pouca atenção. Agora, nos temos que dialogar mais com os movimentos sociais, defender suas bandeiras e, principalmente, compreender uma coisa que sempre esteve claro. Não tem mudança no Brasil se não tiver mobilização social, luta social e organização social. Não basta ser governo, não basta ter parlamentares. Precisa ter luta. Só luta muda.

UOL News - Qual sua avaliação sobre a participação do PT no governo Lula?

Valter Pomar - O PT tem uma influência grande no governo Lula, mas é uma influência menor do que a gente gostaria e, principalmente, é menor daquela que é necessária no país. Nós queremos aumentar nossa influência em áreas estratégicas, como a questão das cidades, porque o Brasil precisa de reforma urbana, na questão do Banco Central, porque o Brasil precisa de menos juros, na questão da comunicação, porque nós precisamos democratizar a comunicação social, e precisamos também ter influência na área política do governo. Você veja que a reforma política, que é um tema central para o PT e para o país, não saiu e a orientação da área política do governo foi liberar a base do governo no Congresso, ao invés de fazer o certo que era orientar a base a votar a favor da reforma política.

UOL News - Quando o senhor fala em ocupar mais espaço, significa ter mais cargos no governo?
Valter Pomar - As duas coisas. Nós precisamos, em primeiríssimo lugar, que programas que foram aprovados nas eleições de 2006 sejam levados a cabo. E nos casos em que for possível fazer com ministros petistas, nós temos o direito e a legitimidade de pleitear isso. Nós somos o principal partido da base de apoio do governo, e temos todo o direito do mundo, conquistado nas urnas, pelo método democrático, de ter uma participação expressiva naquele que é também o nosso governo.

UOL News - O partido hoje é ouvido pelo presidente?

Valter Pomar - O partido é ouvido pelo presidente da República, mas isso não significa que o presidente faça aquilo que nós pedimos e aquilo que nós julgamos necessário. O que eu defendo é que o partido tenha maior influência sobre o governo, ou seja, que ele se faça mais ouvido e que ele convença o presidente da República a fazer aquilo, pelo menos em parte, que nós pedimos, que nós julgamos necessário e que foi aprovado pelo povo nas eleições de 2006.

UOL News - Petistas envolvidos em casos de corrupção devem ser punidos internamente?
Valter Pomar - Quando aconteceram todos os episódios em 2005, eu defendi que fosse instalada uma comissão de ética para julgar os envolvidos, e é obvio que pessoas que se envolvem em crimes, têm que ser punidas, pela sociedade, e pelo PT, uma vez que o PT tem que dar exemplo, já antes, porque nós defendemos outra sociedade, e agora, no governo, mais ainda, porque nós que dar exemplo daquilo que são as leis do país, sempre sabendo que nem toda lei é justa. Por exemplo, nós defendemos a ocupação de terras na luta pela reforma agrária, mesmo quando a lei não autoriza.

UOL News - O PT deu o exemplo?

Valter Pomar - Nós tivemos casos do presidente nacional do PT que renunciou, enquanto o do PSDB ficou lá até o final do mandato, nós tivemos um secretário geral que se desfiliou do partido, nós tivemos um tesoureiro nacional que foi expulso do PT, tem pessoas que estão em comissão de ética. O que nós fizemos, nenhum partido no país fez. Nós cortamos na nossa própria carne e o nosso governo, em âmbito federal, tomou medidas que o governo Fernando Henrique não teve coragem de tomar, desde afastamento de ministros até a renovação do mandato do Procurador-Geral da República, que foi quem fez a denúncia contra os supostamente envolvidos nos casos de corrupção. A diferença entre o PT e o PSDB no quesito corrupção é enorme. Eles colocam embaixo do tapete. A gente toma medidas.

UOL News - Foram suficientes as medidas tomadas pelo partido?
Valter Pomar - Existem pessoas que estão se defendo na Justiça. Eles têm o direito de mostrar que são inocentes. Por outro lado, o tema corrupção é combatido de forma permanente, não é um tema que se combate de maneira tópica. O principal motivo da corrupção no Brasil é o financiamento privado das campanhas eleitorais. Por isso, o PT defende o financiamento público e, por isso, muitos que criticam o PT, quando foram votar pelo financiamento público, recuaram. Alimentam o sistema que alimenta a corrupção.

UOL News - O PT deve ter candidato próprio em 2010?

Valter Pomar - O PT terá candidato ou candidato à sucessão do presidente Lula, irá ao segundo turno e vencerá as eleições presidenciais de 2010. A coalizão que apóia o governo terá várias candidaturas, duas, talvez três candidaturas, no primeiro turno, como aconteceu em 2006 e em 2002. E no segundo turno estaremos unidos contra uma candidatura, possivelmente, do PSDB.

UOL News - Se as atuais regras forem mudadas, você defende a possibilidade de Lula concorrer a um terceiro mandato?

Valter Pomar - O presidente Lula está fazendo um ótimo mandato e se houvesse uma alteração constitucional e se ele fosse candidato a um terceiro mandato, certamente seria eleito. Agora, nós somos contra isso. O Lula e o PT foram contra a mudança nas regras do jogo para beneficiar o Fernando Henrique, quando foi aprovada a reeleição, e pele mesmo motivos nós somos contra mudar as regras no meio do jogo. E não é necessário. Seria uma coisa totalmente despropositada, porque o PT dispõe de quadros de ótima qualidade, capaz de vencer as eleições presidenciais de 2010, encabeçando um arco de alianças políticas e sociais.

UOL News - Mas não foi um petista que levantou essa possibilidade?

Valter Pomar - Sempre tem alguém que tem um devaneio. A posição é clara. Nós queremos um terceiro mandato para esquerda, para o PT não para o Lula.

UOL News - Qual a principal bandeira que o PT deve empunhar até o final do mandato de Lula?
Valter Pomar - A principal bandeira do PT é o socialismo. Nós vivemos em uma sociedade capitalista, em termos de Brasil, América Latina e mundo. É uma sociedade terrível para quem é pobre, para quem é trabalhador. É uma sociedade que agride o ambiente, que agride a democracia, que coloca sempre o mundo a beira de uma guerra, que do ponto de vista social é desastrosa. Por isso, a principal bandeira do PT é a implantação de uma sociedade socialista. O que significa, aqui e agora, lutar por democracia, por soberania nacional e por tudo que aumente a igualdade social no nosso país.

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