Candidato, Cardozo critica grupos do partido que preferem cargo a política.
Da Redação uol
O deputado federal por São Paulo José Eduardo Cardozo é advogado, tem 48 anos e é filiado ao PT desde 1980. Cumpriu três mandatos como vereador na cidade de São Paulo, presidiu a Câmara Municipal entre os anos de 2001 e 2002, e está na segunda legislatura na Câmara dos Deputados. Cardozo é candidato à presidência petista pela chapa "Mensagem ao Partido". Ele foi o primeiro candidato do partido entrevistado pelo UOL News na série de entrevistas com os aspirantes ao cargo. Confira os principais trechos.
UOL News - Por que o senhor quer ser presidente do PT?
José Eduardo Cardozo - A nossa candidatura é expressão de um conjunto de militantes petistas que não estão contentes com a situação que nós vivemos hoje no PT. É claro que nós tivemos grandes conquistas, grandes vitórias, o PT elegeu o presidente da República, mas é claro que tem muita coisa que precisa mudar.
UOL News - Que mudanças o senhor defende para o PT?
Cardozo - Nós temos que mudar a democracia interna no PT. Nós precisamos parar com aquela situação que nós vivemos em quatro ou cinco decidem tudo no partido e impões essas decisões ao partido. Isso leva ao esvaziamento dos nossos diretórios, esvaziamento dos nossos núcleos e abatimento da nossa militância. Segundo: a ética na política. É necessário que quem lula pela ética na política seja intransigente com seus adversários, mas também coloque a ética no plano interno. Nós aprovamos um código de ética no Congresso Nacional do PT e a futura direção tem que implementar o Código de Ética e fazer cumprir. Nós temos que ser mais duros internamente do que como somos com nossos adversários.
UOL News - Qual sua principal crítica ao partido?
Cardozo - A atual forma de gestão do partido exauriu. Hoje as questões principais não são discutidas no partido. São decididas fora dele e impostas ao partido. Quando, por exemplo, algumas decisões podem dividir aqueles que comandam o partido essas discussões não são colocadas. Há temas que são proibidos. Aqueles que não pensam como a direção são execrados, não têm oportunidades de atuação dentro do PT.
UOL News - O senhor poderia citar exemplos?
Cardozo - Há vários exemplos, eu não queria individualizar, pois eu acho que ficaria muito chato. Muitas pessoas são afastadas de qualquer possibilidade de atuação porque discordam do PT. A matriz de pensamento é tão autoritária que o respeito à pluralidade acaba não acontecendo. O militante ideológico fica abatido, sabe que sua palavra não serve nada. E nós estamos vivendo uma situação muito grave. Nossa militância histórica está sendo substituída por uma militância paga, que fica acenando bandeirinhas e não sabe porque está fazendo isso.
UOL News - Quais são os principais erros e acertos do PT ao longo de sua história?
Cardozo - Os acertos são tantos. Nós construímos o maior partido de esquerda da história do Brasil, da América Latina, elegemos um presidente da República oriundo da classe trabalhadora, conquistamos Estados importantes, tivemos grandes vitórias democráticas na construção dos direitos dos trabalhadores. Agora, os erros começam a se acentuar muito no momento em que o PT cresce e assume o controle de certos seguimentos do aparelho do Estado. A democracia interna começa a ser esvaziada, não dá resposta no campo ético interno, a ignorar os movimentos sociais, acaba agindo como cartório de referência de políticas governamentais. Governo é governo, partido é partido. O partido não pode ser um braço do governo. São papéis distintos. É errado dirigentes do PT serem porta-vozes do Palácio do Planalto. O PT tem que apoiar o governo Lula, mas tem que ser propositivo.
UOL News - Qual a avaliação que o senhor faz da participação do PT no governo Lula?
Cardozo - Participar não significa ocupar cargos, significa que um governo atenda a certas perspectivas políticas. O governo Lula não é formado só pelo PT. Ele é formado por várias forças políticas que convivem. Cabe ao PT disputar com essas forças políticas o caminho que acha mais conveniente. Não se trata de pedir cargos para acomodar companheiros ou militantes, como alguns fazem. O grande caminho do PT não passa pelos cargos, passa pelas políticas. É claro que muitas vezes para implementar políticas você precisa ter pessoas capacitadas para exercer essas políticas que você propõe.
UOL News - Hoje o PT está mais preocupado em procurar cargos ou propor políticas?
Cardozo - Alguns segmentos do PT se preocupam mais com cargos do que com políticas. É preciso inverter esta ordem. Não se trata de controlar o governo, mas fazer com que o governo vá em direção da democracia e do socialismo.
UOL News - Petistas envolvidos em caso de corrupção devem ser punidos internamente?
Cardozo - Os petistas que comprovadamente cometeram delitos têm que ser expulsos do partido. O partido foi inerte internamente em não apurar delitos internos, por duas razões, ou para punir quem tem que ser punido, ou para lutar para resgatar a imagem de quem foi acusado injustamente.
UOL News - O PT deve ter candidato próprio para a sucessão de Lula?
Cardozo - Seria absurdo imaginar que um partido do tamanho do PT, da envergadura política do PT e que tem dentro de seus quadros o atual presidente da República, não tivesse legitimidade para ter uma candidatura própria. É um absurdo dizer que o PT não deve propor uma candidatura. Nós temos legitimidade para fazer isso. Agora, temos que reconhecer que alguns partidos aliados também têm esta legitimidade. A construção de uma candidatura petista não pode passar por critérios de arrogância e de imposição. Nós temos que construir nossa candidatura, dialogando com os nossos parceiros. O PT tem que construir um campo de centro-esquerda como aliados prioritários.
UOL News - Acha correto o presidente ser mais uma vez reeleito?
Cardozo - Não. Qualquer mudança casuística do sistema político brasileiro é equivocada e errada. Nós temos que pensar o sistema político pelo estado brasileiro e não por eventuais pessoas, por melhor que elas sejam. Eu sou contra.
UOL News - Qual a principal bandeira que o PT deveria defender como prioridade para o governo?
Cardozo - O PT tem que colocar como bandeira central de sua ação a reforma política, dialogando com outras forças. O atual sistema é atrasado e antidemocrático.
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